Além da Inquietude

Como o Cérebro com TDAH Aprende de Verdade

 

"Meu filho é inteligente, mas parece que o conteúdo entra por um ouvido e sai pelo outro".

 

Por Silvia Gonçalves de Almeida

 

Para entender a aprendizagem no Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), precisamos olhar para a neurobiologia por trás do comportamento.

Imagine o cérebro como um aeroporto movimentado; as funções executivas são a "torre de controle". No TDAH, essa torre enfrenta dificuldades em gerenciar o tráfego de informações.

As principais áreas afetadas são:

 

Memória de Trabalho

A capacidade de manter uma informação na mente enquanto realiza uma tarefa (como lembrar o início de uma frase ao chegar no final).

 

Controle Inibitório

A habilidade de filtrar estímulos distratores e frear impulsos.

 

Flexibilidade Cognitiva

Conseguir mudar a estratégia quando algo não está funcionando.

 

Por que a escola costuma ser um desafio?

 

A aprendizagem tradicional exige longos períodos de foco sustentado e organização autônoma. Para o aluno com TDAH, o esforço para se manter sentado e atento consome tanta energia que sobra pouco "espaço mental" para processar o conteúdo pedagógico.

 

Isso não é falta de vontade ou preguiça. É uma questão de disponibilidade neurocognitiva.

 

Para ajudar essas crianças e adolescentes, saímos do modelo de "repetição" e entramos no modelo de estímulo multissensorial:

 

Fracionamento de Tarefas

Uma lista longa de exercícios é paralisante. Dividir em blocos pequenos traz a sensação de conquista e libera dopamina, o combustível do foco.

 

Uso de Pistas Visuais

O cérebro com TDAH se beneficia imensamente de mapas mentais, cores e checklists. O que é visual é mais difícil de ser esquecido.

 

Movimento Estruturado

Permitir que a criança manipule um objeto ou faça breves pausas ativas ajuda a regular o nível de alerta do sistema nervoso.

 

Feedback Imediato

Esperar uma semana pela nota de uma prova não funciona. O reforço positivo e a correção devem ser próximos ao evento para fortalecer a conexão neural.

As emoções e seus componentes fisiológico, comportamental e cognitivo

 

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Por Silvia Gonçalves de Almeida

 

A emoção é uma resposta complexa e coordenada do corpo inteiro a um estímulo, ocorrendo de forma rápida e, muitas vezes, inconsciente. Essa reação se manifesta através de três componentes que atuam de forma interligada: o fisiológico, o comportamental e o cognitivo.

O primeiro e mais imediato nível da emoção é a resposta do corpo, o componente fisiológico. Quando o cérebro percebe um estímulo — seja um som alto, uma imagem assustadora ou uma boa notícia — ele dispara uma série de reações biológicas. O cérebro, especialmente a amígdala, atua rapidamente para preparar o organismo para uma ação imediata.

Nesse processo, o Sistema Nervoso Autônomo (SNA) desempenha um papel crucial, dividindo-se em duas partes. O Sistema Nervoso Simpático (SNS), ou "luta ou fuga", é ativado em situações de medo ou raiva, acelerando a frequência cardíaca, dilatando as pupilas e desviando o sangue para os músculos, preparando o corpo para o perigo.  

Por outro lado, o Sistema Nervoso Parassimpático (SNP), conhecido como "descanso e digestão", é ativado em momentos de alívio ou relaxamento, diminuindo o ritmo cardíaco e restaurando as funções corporais.

Além das reações do SNA, a emoção também desencadeia respostas hormonais. Emoções como medo e estresse ativam a liberação de adrenalina e cortisol, hormônios que potencializam o estado de alerta. Em contrapartida, a alegria está associada à liberação de dopamina e serotonina, neurotransmissores ligados ao prazer e ao bem-estar.

O componente comportamental é a manifestação externa da emoção, aquilo que as outras pessoas podem observar em nós. As expressões faciais, por exemplo, são reações universais e inatas, como o sorriso para a alegria ou o franzir da testa para a raiva. Elas são essenciais para a nossa comunicação social. Além disso, a nossa postura e linguagem corporal também refletem o nosso estado emocional: o medo pode nos fazer encolher, enquanto a confiança nos faz expandir o corpo. A voz também muda de acordo com a emoção, alterando seu volume, ritmo e entonação. Uma voz trêmula pode indicar medo, enquanto um tom mais alto e rápido pode sugerir excitação ou raiva.

Por meio do componente cognitivo, a emoção se transforma em um sentimento consciente. O cérebro avalia o estímulo, buscando entender a sua natureza, como, por exemplo, "este cachorro está latindo porque quer brincar ou é uma ameaça?". Essa avaliação é profundamente influenciada por nossas experiências, memórias e crenças. Em seguida, o cérebro atribui um significado ao que está sentindo, nomeando a emoção: a aceleração do coração pode ser interpretada como "excitação" se estamos em um parque de diversões ou "medo" se estamos em uma rua escura.

Finalmente, o córtex pré-frontal, a parte mais evoluída do nosso cérebro, nos permite ter consciência da emoção, nomeando-a e compreendendo-a. Essa capacidade nos permite decidir como agir, em vez de apenas reagir.

Em suma, a emoção é um processo cíclico e rápido: um estímulo causa uma reação fisiológica, que é expressa no comportamento e, então, interpretada e avaliada cognitivamente. Compreender esses três componentes é fundamental para trabalhar com crianças e adolescentes, pois nos ajuda a identificar a origem de suas dificuldades emocionais e a desenvolver estratégias que abordem não apenas o que eles sentem, mas também o que seus corpos e mentes estão fazendo.

Embora seja um hormônio, a oxitocina atua como um neurotransmissor no cérebro. Ela é frequentemente chamada de o hormônio do amor e do vínculo, pois está ligada à empatia, à confiança e ao apego s.png

A Importância da Relação Mãe-Bebê

Durante a Gestação

 

Por Silvia Gonçalves de Almeida 

 

O período gestacional não é apenas um tempo de desenvolvimento físico, mas uma fase importante de programação biológica e emocional. O útero é o primeiro ambiente de aprendizagem, e o bebê está ativamente percebendo e respondendo a este "mundo" através da mãe.

 

Neurodesenvolvimento:

 

O cérebro do feto passa por um crescimento e maturação exponenciais. A formação das conexões neuronais (sinaptogênese) é intensa.

Fatores como a nutrição materna, a ausência de toxinas e, crucialmente, o nível de estresse materno influenciam diretamente a arquitetura cerebral.

 

Regulação Hormonal e Fisiológica:

 

O feto está em sintonia química com a mãe. Os hormônios maternos – como os glicocorticoides (ex: cortisol, liberado em situações de estresse) e as endorfinas (liberadas em momentos de relaxamento ou prazer) – atravessam a placenta. O bebê recebe, assim, uma "prévia" do ambiente externo e aprende a regular seus próprios sistemas de estresse e prazer com base nisso.

 

A ligação entre mãe e bebê no útero é um poderoso e sofisticado sistema de comunicação neuroquímica e sensorial. Quando a mãe vive sob estresse crônico ou ansiedade elevada, há uma liberação constante de cortisol. Esse excesso, ao chegar ao feto, pode programar o eixo HPA do bebê para ser hiper-reativo. A criança pode nascer com uma predisposição a ter um "gatilho" de estresse mais baixo, ou seja, reagindo de forma mais intensa ou rápida a pequenas frustrações. 

 

Quando a mãe está relaxada, sente-se segura e se conecta com o bebê através do toque na barriga, de músicas ou conversas tranquilas, há uma maior liberação de neurotransmissores como a serotonina e, principalmente, a oxitocina (o "hormônio do amor" ou da afiliação). A oxitocina materna influencia o sistema de recompensa e de vínculo do feto, promovendo um ambiente químico de segurança e calma. Isso contribui para o desenvolvimento de um sistema nervoso mais robusto e com maior capacidade de autorregulação emocional após o nascimento – um pilar essencial para a concentração e o sucesso na aprendizagem.

 

O feto ouve a voz da mãe, o ritmo de seus passos e os sons de seu coração. Esses são os primeiros padrões rítmicos e sensoriais que ele aprende a reconhecer. Após o nascimento, a voz da mãe é um potente estímulo de calma. O reconhecimento dessa voz ativa áreas cerebrais relacionadas à segurança, facilitando a transição do útero para o mundo externo.

 

O cuidado emocional e a tranquilidade da mãe durante a gestação não são apenas para ela, mas representam a primeira intervenção neuropsicopedagógica no desenvolvimento do bebê. Um ambiente uterino rico em oxitocina e com cortisol bem regulado estabelece as bases para o desenvolvimento de funções executivas, como a capacidade de atenção, regulação de impulsos e manejo emocional, fundamentais para superar as dificuldades de aprendizagem que a criança possa vir a enfrentar.

 

O Papel Vital do Cuidador

na Regulação Emocional do Bebê

 

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Por Silvia Gonçalves de Almeida

 

O choro de um bebê pode soar como um alarme, e de fato é. A amígdala, a área cerebral responsável pelas emoções e pelo medo, é o que dispara essa resposta de angústia.

No cérebro de um bebê, essa área é altamente reativa, acionada por qualquer desconforto, seja fome, frio ou apenas um susto. Mas, diferente do cérebro de um adulto, o do bebê ainda não possui o seu "gerente" pronto para agir. O córtex pré-frontal, que nos adultos age como um "freio" para a amígdala e nos ajuda a gerenciar as emoções, ainda está em desenvolvimento.

É aí que entra o papel fundamental do cuidador, que funciona como esse gerente externo para o bebê. O que chamamos de regulação emocional é, na verdade, a ação do cuidador que preenche essa lacuna neural. Quando o bebê chora, a resposta calma e consistente do adulto acalma o seu sistema nervoso.

Essa regulação externa acontece através de uma conexão sensorial profunda e poderosa. Uma voz suave, o canto, ou um simples "shhh" ativam o nervo vago, que é o responsável por acalmar o corpo, diminuindo a resposta de estresse do bebê, por exemplo.

Já o contato pele a pele e o toque gentil liberam oxitocina, o "hormônio do vínculo", que age como um antídoto para o cortisol, o hormônio do estresse. O rosto do cuidador, com suas expressões faciais tranquilas, age como um espelho. O cérebro do bebê, através dos seus neurônios-espelho, começa a imitar esse estado emocional, aprendendo o que é se sentir seguro e calmo.

Através dessas interações repetidas, o cérebro do bebê aprende uma lição importante: depois do estresse, vem o alívio. Essa experiência de correlação gradualmente constrói as bases para a autorregulação.

Com o tempo e a experiência de ser acalmado, o bebê começa a internalizar essas estratégias. O que antes era uma necessidade de ser embalado para se acalmar, pode se transformar em um bebê que suga o polegar ou busca um objeto de conforto para encontrar a calma por conta própria.

A regulação emocional não é um talento inato, mas sim uma habilidade que o cérebro aprende através da segurança e do apoio constante. O cuidador não apenas acalma o bebê no momento presente, mas também ensina o seu cérebro a construir as ferramentas que ele usará pelo resto da vida para lidar com as próprias emoções. O amor e a presença calma são, de fato, a melhor aula de inteligência emocional que um bebê pode ter.

 

ALGUMAS ATIVIDADES INTERESSANTES

PARA CRIANÇAS COM TDAH

 

   "O Mestre Mandou" com desafios

 

   Jogos de Tabuleiro Estratégicos

 

   Organização por Categorias

 

   Labirintos

 

   Tangram

 

   Stop (Adedonha)

 

   Circuito de Obstáculos

 

   Yoga ou Mindfulness para crianças

 

  Esportes com Regras Claras

 

Abordagem Multissensorial

Envolvendo Todos os Sentidos

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Por Silvia Gonçalves de Almeida

 

A aprendizagem é mais forte e duradoura quando envolve múltiplos sentidos. Uma abordagem multissensorial encoraja a criança a ver a letra, ouvir o som, falar a palavra e, de forma ativa, traçar a letra na areia ou no ar, por exemplo.

 

Isso cria conexões neurais mais fortes e beneficia, em especial, os alunos com dificuldades de aprendizagem, oferecendo diferentes caminhos para que a informação chegue ao cérebro e seja assimilada.

 

Essas práticas, quando aplicadas em conjunto, transformam o processo de alfabetização em uma jornada mais acessível e significativa para todas as crianças.

A Linguagem como Pilar da Aprendizagem:

entendendo o processo para superar dificuldades

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Por Silvia Gonçalves de Almeida

 

O desenvolvimento da linguagem é um processo gradual e complexo, que segue uma sequência bem definida. A linguagem receptiva, por exemplo, é a base, pois é a capacidade de entender o que é dito, seja por palavras, gestos ou expressões faciais, e se desenvolve antes da linguagem expressiva, que é a habilidade de produzir sons, palavras e frases para se comunicar.

Esse processo se desdobra em fases importantes: a pré-linguagem (0 a 12 meses) com balbucios e compreensão de comandos simples; as primeiras palavras (12 a 18 meses); a explosão vocabular (18 a 24 meses); as frases simples (2 a 3 anos); e o desenvolvimento sintático e semântico (a partir dos 3 anos), quando as frases se tornam mais complexas e a compreensão de conceitos abstratos se aprofunda.

Na neuropsicopedagogia, entendemos que as dificuldades acadêmicas frequentemente têm raízes em desafios com a linguagem. A intervenção eficaz começa por avaliar e fortalecer essa base. A leitura e a escrita dependem diretamente da linguagem oral. A consciência fonológica — a habilidade de perceber e manipular os sons da fala — é um dos maiores preditores de sucesso na alfabetização, e dificuldades nesse aspecto podem estar ligadas à dislexia.

A compreensão textual não se limita a decodificar palavras; exige vocabulário amplo, entendimento da estrutura das frases e capacidade de fazer inferências, habilidades essenciais para qualquer disciplina.

A resolução de problemas, seja em matemática ou em outras áreas de conhecimento, depende da linguagem para formular o desafio, articular estratégias e comunicar soluções. Por fim, os aspectos pragmáticos da linguagem — como entender o uso social da fala — impactam a interação social e a aprendizagem colaborativa, o que é especialmente relevante em casos como o do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Na neuropsicopedagogia, a linguagem é um ponto de partida relevante para todas as nossas intervenções. Ao entender a fundo como ela se desenvolve e como se conecta com cada área da aprendizagem, conseguimos criar estratégias personalizadas e eficazes para que cada criança e adolescente possa alcançar seu pleno potencial.